Uma mancha escura salta aos olhos do designer gráfico Jonas Lobo, 32, quando ele se olha no espelho pela manhã. “Dependendo do dia, chega a ser assustador.”

Depois de testar rodelas de pepino e batata sobre as olheiras, na tentativa de amenizá-las, optou por “pintar” a área arroxeada com a micropigmentação, técnica oferecida em clínicas de estética para preencher e desenhar as sobrancelhas.

“Doeu para caramba”, diz. “É como se você fizesse uma tatuagem na pálpebra.”

Mas há quem faça exatamente isso para tratar olheiras.

“Adaptei a arte da tatuagem para um procedimento permanente que resolve definitivamente o problema”, diz o tatuador de São Paulo Rodolpho Torres, que atende majoritariamente mulheres.

Ele, que batizou sua técnica de “agulha mágica”, usa a tatuagem para aplicar pigmento na região das olheiras.

Já a tinta da micropigmentação sai depois de cerca de dois anos.

“É uma técnica bastante difícil”, diz Vanessa Silveira, que é formada em relações públicas e, após fazer cursos de estética, fundou a rede de micropigmentação que leva seu nome, presente em oito Estados do país. Ela afirma ser a criadora do método.

“Se a pessoa não souber fazer, há um risco gravíssimo. Recebemos várias pessoas para corrigir a técnica feita de maneira errada.”

A micropigmentação de olheiras custa cerca de R$ 2.300 (aplicação e retoque). Torres não quis comentar quanto cobra pela sua técnica –disse apenas que o preço é semelhante ao de um implante de silicone nos seios, coisa que pode variar entre R$ 7.000 e R$ 15 mil.

É SEGURO?

Ambas as técnicas são alvo de preocupação entre especialistas da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

Especialistas ouvidos pela Folha dizem que a sensibilidade ao redor dos olhos pede cuidado na hora de realizar qualquer tipo de procedimento na região e citam riscos, como os de alergia.

Para Tatiana Gabbi, médica dermatologista da SBD, não se justifica usar a tatuagem para cobrir um problema que pode ser solucionado com medidas menos drásticas.

Torres discorda: “Na verdade, eu estou resolvendo um problema que os dermatologistas e cirurgiões plásticos não resolvem”.

A dermatologista da SBD rebate e afirma que o problema estético deve ser avaliado por especialistas e que, com as técnicas existe

Segundo Daniel Coimbra, coordenador de cosmiatria da SBD, a micropigmentação e a tatuagem podem dificultar tratamentos futuros, como os que usam laser. Pode haver também o risco de alergias.

Mário Motta, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, também levanta ressalvas quanto às novas opções contra olheiras. Ele afirma que há um risco de as práticas provocarem crescimento anormal dos cílios –que poderiam chegar a ferir o olho– e criarem distúrbios nas glândulas que auxiliam na lubrificação dos olhos.

“Esses problemas são raros, mas, se o procedimento for feito por uma pessoa que não conhece a anatomia de pálpebra, a chance de ter problemas é maior” diz.

Ainda segundo Coimbra, as técnicas só se concentram na questão da pigmentação e não tratam da profundidade das olheiras, que pode ser causada pela flacidez da pele e pelo envelhecimento.

Também é preciso considerar o que causou as manchas, que podem ser de melanina, hemossiderina (substância presente no sangue) ou até mesmo da presença de muitos vasos sanguíneos na área (olheiras vasculares).

O que os tratamentos dermatológicos fazem é basicamente tentar desgastar essas substâncias.

O fator hereditário conta bastante para a aparição das olheiras. Alergias e o ato de coçar muito a região também podem causar as manchas.

Já as olheiras provocadas pelo cansaço e pela falta de sono costumam ser mais passageiras.

Os especialistas ouvidos pela Folha preferem ser cautelosos com os novos tratamentos e afirmam que são necessários estudos para comprovar a segurança dos mesmos.

“As pessoas precisam ter um pé atrás com tudo que parecer milagre”, afirma Daniel Coimbra.