Harry dificilmente ocupará o trono britânico, mas o anúncio de seu noivado com uma americana de ascendência africana é um divisor de águas.

“Elas provavelmente teriam sido melhores amigas”, disse o príncipe Harry, do Reino Unido, na segunda-feira 27. Referia-se à sua namorada, a atriz americana Rachel Meghan Markle, de ascendência africana, e à sua mãe, a princesa Diana, morta em um acidente de carro em Paris, em 1997, aos 36 anos, a mesma idade que Meghan tem hoje. Harry, que fez o comentário no dia em que foi anunciado que ficará noivo da americana plebeia, tenta se adequar a uma tendência recente na Casa de Windsor, a dinastia à qual ele pertence: a de diminuir a distância entre os membros da monarquia e seus súditos, sem descer do trono nem desfazer o encanto e o glamour que envolvem a vida palaciana. Em suma, a realeza britânica tenta mostrar, controladamente, seu lado mais humano, gente como a gente.

O futuro casal representa a diversidade e a complexidade que a sociedade britânica adquiriu nos últimos anos. Além de estrangeira, Meghan é divorciada (foi casada durante dois anos com um produtor de cinema), católica (ela terá de ser batizada na Igreja Anglicana), feminista e, para horror dos súditos racistas, mulata (ou “metade negra”, como ela se define). Sua mãe, a professora de ioga em Los Angeles e assistente social Doria Rad­lan, é negra, e seu pai, o diretor de iluminação aposentado Thomas Markle, é branco. Eles se separaram quando Meghan tinha 6 anos. Ela diz que sofreu, mas também aprendeu muito, com o preconceito que enfrentou por ter nascido em uma família miscigenada, algo menos comum nos Estados Unidos do que no Brasil. Chegou a acontecer, por exemplo, de acharem que sua mãe era, na realidade, sua babá. Quando seu namoro se tornou público, em novembro do ano passado, a jovem virou alvo dos tabloides ingleses. Um deles, o The Sun, afirmou que ela estava em uma plataforma de vídeos pornográficos. A realeza condenou os ataques em uma nota oficial, considerando-os uma mistura de sexismo, racismo e difamação. “É claro que é desanimador. Mas eu realmente tenho orgulho de ser quem sou e de vir de onde eu venho, e nunca nos importamos com isso”, disse a atriz, que é muito bem articulada quando fala.