O rebelde Óscar Pérez é morto pelo regime de Nicolás Maduro em uma ação militar que deixa clara a posição de não tolerar resistência nem aceitar rendição.

Antes de ser morto, na manhã da terça-feira 16, o rebelde venezuelano Óscar Pérez postou mais de uma dúzia de vídeos curtos com imagens da casa onde resistia a um cerco das forças especiais da polícia iniciado na madrugada de segunda-feira 15. Líder de um grupo armado de opositores à ditadura de Nicolás Maduro, Pérez foi abatido junto com seis companheiros, em El Junquito, a quase 40 quilômetros de Caracas. De início, ele e seu grupo não quiseram sair e, desconfiados das garantias oferecidas, resistiram com fuzis AK-47. Mais tarde, com sangue escorrendo no rosto, afirmou: “Não querem que nos entreguemos. Literalmente querem nos assassinar”. A seguir, postou mais um apelo: “Estamos negociando para nos entregar, pois há gente inocente. Há civis, mas eles não querem”. As mensagens em vídeo foram enviadas ao longo de um período nove horas. Finalmente, a polícia bolivariana usou lança-granadas antitanque para derrubar as paredes do esconderijo e matar Pérez – um sinal evidente de que o regime de Maduro não tem piedade com seus opositores.

Ator amador

Pérez era alvo dos chavistas por ser considerado traidor e terrorista. Ex-policial e piloto da Cicpc, equivalente venezuelano à Polícia Civil, ele se rebelou em 27 de junho, quando tomou um helicóptero e disparou tiros e granadas contra os prédios do Tribunal Supremo de Justiça e do Ministério do Interior. No ataque, pendurou na porta da aeronave um cartaz com os dizeres “350 Liberdad”, alusão ao dispositivo da constituição venezuelana que admite o enfrentamento de um regime que contrarie a democracia. Ele também foi acusado de participar de um ataque que roubou armamentos de guerra de um quartel, em dezembro.

A trajetória do opositor foi fugaz e midiática. Ator amador em um filme de ação, antes da clandestinidade Pérez postou um vídeo brincando com uma pistola e fotos posadas em treinamentos. Foragido, desafiou o governo em uniforme militar convocando uma resistência armada pela democracia e falando de deus. Também fez aparições surpresa no auge dos atos contra o governo. Ele afirmava pertencer a um grupo autodenominado Equilíbrio Nacional pela Venezuela. O financiamento da luta viria de familiares e amigos emigrados. O governo diz que os recursos são da CIA, a central de inteligência dos Estados Unidos. O confronto também matou dois integrantes das forças especiais da Polícia Nacional Bolivariana (PNB) e um paramilitar chavista. Outros cinco policiais ficaram feridos. Do lado dos rebeldes foram feitos cinco prisioneiros, todos feridos com gravidade. Em pronunciamento na mesma noite, o presidente Nicolás Maduro afirmou que o grupo pretendia praticar um atentado com carro-bomba antes de buscar abrigo na Colômbia, país com quem a Venezuela mantém constante atrito.

“Óscar Pérez foi executado por ordens de Maduro. Esse capítulo se soma ao expediente que circula no Tribunal de Haia, esperando uma sentença contra os que aplicam a pena de morte” Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas e líder da oposição no exílio

A morte do ex-policial não encerrou as buscas. A ministra dos Serviços Penitenciários Maria Íris Valera pediu a captura de Miguel Rodrigues Torres, ex-ministro da Justiça. Dissidente, ele é acusado de ser mentor de Pérez. No dia seguinte ao tiroteio, Maduro afirmou que a atual rodada de negociações com a oposição será uma “última oportunidade”. Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas e um dos líderes da oposição no exílio, chamou o confronto de execução ao vivo. Críticos do governo afirmaram que a captura dos doze rebeldes seria possível na ação que contou com mais de 150 militares.

A escalada das mortes brutais na Venezuela não se restringe a ações políticas. No domingo 14, o turista amazonense Amaury Silva foi assassinado por assaltantes em uma emboscada em Puerto Ordaz. Ele viajava de carro com um grupo de familiares para Ilha de Margarita. Após o crime, o Itamaraty determinou que fossem evitadas “viagens não essências” ao país. A recomendação na semana anterior era de “alto grau de alerta”.