A recomendação da Organização Mundial de Saúde, que incluiu todo o estado de São Paulo em área de risco de febre amarela, reforça que o Brasil deverá se preparar para não só expandir a vacinação no estado de São Paulo — que hoje está em municípios específicos — mas para uma maior expansão pelo Brasil, dizem especialistas.

A categorização como área de risco em todo o estado de São Paulo foi feita porque há um risco real de transmissão na região, explica Marcos Boulos, coordenador de controle de doenças da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Antes, com o vírus mais comum na região Norte e Nordeste, não havia transmissão registrada no Estado — cenário que mudou desde 2016, com o registro do vírus em primatas, em humanos e os óbitos (que foram de 21 mortes em um ano em São Paulo).

Há, no entanto, uma diferença entre a recomendação da OMS, que abrangeu todo o Estado, e as áreas de risco do Ministério da Saúde, que se limitam a municípios de maior risco em São Paulo e não abrangem todo o território.

Essa diferença na recomendação é explicada, em nota do ministério enviada ao G1, porque a Organização Mundial da Saúde não tem como prever especificamente o destino de viajantes nesses territórios e, por isso, a recomendação foi para todo o estado.

“Como não há possibilidade de prever os deslocamentos internos desses viajantes, trata-se de uma medida ampliada de cautela”, disse a pasta.

Para o infectologista Artur Timerman, no entanto, presidente da Sociedade Brasileira de Arboriroses, toda a região de São Paulo está em risco e não há, igualmente, como prever os deslocamentos dos moradores residentes aqui.

“O porteiro do prédio aqui mora em região próxima ao Horto Florestal, tem gente que viaja para mata o tempo todo por aqui, num raio de 100 km, você está em uma região de risco. Os residentes aqui estão se locomovendo o tempo inteiro” afirma.

“Ninguém fica pedindo passaporte no deslocamento aqui, mas os que moram no Brasil também se deslocam e não há como prever.”

Isabela Ballai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, também acredita que a tendência seja da expansão de vacinação no território. “O mapa da vacinação é atualizado a cada surto e esse é o pior em décadas.”, diz.

“É uma medida importante e é fundamental que esse grupo seja incluído na rotina de vacinação para bloquear a urbanização da febre amarela, que pode ocorrer se o Aedes picar uma pessoa infectada”, diz.

Ministério vai manter estratégia em São Paulo
O Ministério da Saúde informa, no entanto, que “a determinação das áreas de vacinação foi feita de acordo o acompanhamento da circulação do vírus, baseada no mapeamento epidemiológico das regiões” e que a recomendação para São Paulo não será modificada.

O coordenador do controle de doenças em São Paulo, contudo, espera que até o final do ano todo o estado de São Paulo seja vacinado — a depender da quantidade de vacina produzida, que atualmente é de 6 milhões de doses por mês.

“Esperamos que, até o final do ano, todo o estado seja vacinado. Vamos trabalhar para isso”, diz Marcos Boulos.
“No longo prazo, também acredito que o Ministério da Saúde vai pensar em uma estratégia para o Brasil”, diz.
O mesmo pensa Artur Timerman, para quem a vacinação nacional é inevitável. “Não tenho dúvidas de que o Brasil vai ter de pensar em estender a vacinação para todo o território”, diz.

Para ele, o principal gargalo para que essa expansão não seja feita é a produção de vacinas. “Foi noticiado agora que foi enviado 1 milhão de vacinas para São Paulo. Precisamos de uns 10 milhões”, diz. “Nem fracionando vai dar para vacinar todo mundo”.

“A recomendação da OMS é um alerta para que se aumente a vigilância, a vacinação, as ferramentas de diagnóstico e o preparo de profissionais”, conclui o infectologista, para quem a resposta dada não dá conta da situação.
“Precisamos de uma coordenação mais estratégica para melhorar todos esses pontos e impedir uma transmissão urbana para o Aedes.”

Para Isabela Ballalai, a universalização da vacina para a febre amarela é uma discussão antiga, mas que precisa ser melhor avaliada também pela possibilidade de efeitos adversos.