“Às vezes não gosto de falar sobre essa história, porque é tristeza demais, muito arrependimento”, diz Juliana Cruz pouco menos de três meses após desembarcar no Brasil depois de 21 dias presa em um centro de detenção da inteligência na Síria.

A auxiliar administrativa de 24 anos deixou Cuiabá e viajou para Damasco em 13 de novembro em busca de “uma aventura”: sua primeira viagem internacional.

Durante uma campanha de arrecadação de fundos para refugiados e soldados daquele país na capital de Mato Grosso, conheceu uma família de sírios pela internet –com quem conversava por meio de ferramentas de tradução online –, que a convidou para passar 15 dias em sua casa e mostrar a realidade do país.

“Várias pessoas me ajudaram na campanha. Paguei uma cirurgia para um soldado amigo dessa família e depois continuamos conversando por mensagem”, conta Juliana. “Foi quando eles me convidaram para ir para lá, ver tudo de perto. Quis me aventurar, não tenho filho, nada que me prenda”, diz.

Juliana não podia imaginar que seria presa sem justificativas e mantida em celas minúsculas, comendo nada mais que uma fruta a cada cinco dias.

“Eu era feliz e não sabia”, diz. “Pesquisei sobre a cidade e sobre o caminho que percorreria, mas não foquei na situação do governo, na hierarquia do país. Esse foi meu erro”, admite.

Amigas próximas da jovem suspeitavam que ela teria se apaixonado por um dos sírios com quem conversava pela Internet, um rapaz chamado Zakharia.

Chegaram inclusive a dizer que Juliana viajou para se casar. Mas ela nega essa versão e aponta para o fato de que mantinha um relacionamento de quatro anos em Cuiabá — o namorado rompeu com ela após a viagem por suspeitar da versão das amigas.

A viagem

Juliana pediu para uma colega de trabalho comprar as passagens em seu nome: 5.200 reais parcelados em oito vezes. Não contou para a família ou namorado o destino de suas férias. Para sua mãe, disse que iria ao Líbano. “Se eu soubesse para onde estava indo acorrentava ela, bloqueava a passagem”, diz a mãe, Kátia Oliveira, de 46 anos.

Para poder viajar, tirou o visto de turismo na embaixada síria em Brasília. “Deram um visto em 20 minutos. Pensei que tudo devia estar tranquilo mesmo no país, não dificultarem em nada”, afirma a moça, que também ouviu de seus amigos sírios que a viagem seria segura.

Na madrugada do dia 16 de novembro, Juliana desembarcou em Beirute, capital do Líbano, país vizinho à Síria. Ali, encontraria uma guia brasileira, Carla Mussallam, que a ajudaria na tradução e no seu primeiro dia no Oriente Médio.

A guia vinha insistentemente advertindo Juliana de que, ao contrário do que seus contatos haviam informado, a viagem à Síria era muito perigosa. No último minuto, no entanto, a mato-grossense desistiu da ajuda de Carla e acabou viajando sozinha de carro até Damasco, capital da Síria, com um vizinho da família que visitaria — um trajeto que em condições normais levaria pouco mais de duas horas.

Após passar por diversos postos de controle militar libaneses e sírios para a conferência do passaporte e do visto, Juliana finalmente chegou a seu destino ainda na manhã do dia 16, onde toda a família já aguardava por ela. “Me trataram muito bem”, conta Juliana.

Entretanto, as férias da brasileira duraram muito pouco: ela foi presa naquele mesmo dia, à noite, quando um oficial do Exército compareceu à casa em que estava hospedada e pediu que ela o acompanhasse para mais uma checagem de documentos.

Juliana foi levada a uma base militar, também em Damasco, e logo em seguida a um centro prisional. “Não tinham motivos para me prender. Eu não fiz nada, tinha visto, passaporte, estava legal”, diz a jovem, reconhecendo que suas expectativas quanto a uma viagem turística no país estavam totalmente erradas.

Juliana conta que Zakharia seria membro do Exército sírio e que no momento de sua detenção chegaram a mostrar-lhe fotos do rapaz. A jovem desconfia que estava sendo vigiada justamente por estar hospedada na casa de um militar.

Prisão

Juliana foi mantida em dois centros de detenção diferentes. No primeiro, dividia a cela com outras 45 mulheres, entre elas oito grávidas. O local era extremamente iluminado e vigiado 24 horas por câmeras, segundo conta. Sem camas ou cadeiras, passava o dia sentada no chão, de cócoras.

Não conseguia comer a refeição árabe oferecida todos os dias, servida em uma grande bacia para ser compartilhada. “Tentei comer quando cheguei, no meu limite de fome, mas vomitava”, conta. “Então me davam uma laranja, dia sim dia não”, diz a jovem, que também bebia água da pia do banheiro que ficava na cela e tomava o tradicional chá árabe todas as manhãs.

Depois de oito dias, foi transferida para outra prisão, dessa vez no centro de inteligência de Kfar Sussa, uma zona administrativa de Damasco. “Ali era bem pior, muito mais rigoroso e só me davam uma laranja a cada cinco dias”, diz Juliana, contando que dividiu a cela minúscula, sem janelas e banheiro com 18 mulheres e 9 crianças. “Era bem abafada, fiquei sufocada e passei mal várias vezes”, relata.

“As carcereiras nos davam remédio para dormir e ficarmos quietas, mas eu sempre cuspia”.

Passou 13 dias confinada ali, sem poder conversar e sob constante ameaça das carcereiras. “Elas batiam em quem falasse muito. Até mesmo nas crianças”, afirma. Apesar disso, conseguiu fazer algumas amizades. “As outras presas me ajudavam, até me davam os gominhos das laranjas delas”, contou. Ainda assim, emagreceu 7 quilos durante os 21 dias em que ficou detida.

Resgate

Depois de três dias sem conseguir contactar a filha, Kátia já estava desesperada. Acionou a Polícia Federal no Mato Grosso, mas foi informada que ainda era muito cedo para a abertura de uma investigação. Buscou então a ajuda do Itamaraty e da embaixada brasileira na Síria.

“Fiquei sem comer, sem beber e sem dormir”, conta Kátia, que só descobriu que a filha estava na Síria dias após seu desaparecimento. “A cada dia as notícias pioravam. Não desejo isso para mãe nenhuma”. A família que Juliana conheceu na Síria não deu informações para a família da jovem e só contou que ela estava na prisão muitos dias após sua detenção.

A embaixada em Damasco conseguiu localizar Juliana após muita procura. A princípio, as autoridades sírias negavam que houvesse uma brasileira presa no país. Diplomatas brasileiros acionaram então contatos mais altos na hierarquia local, que passaram a auxiliar na busca pela jovem e a negociar sua liberação.

Assim que deixou sua cela, Juliana foi levada ao Ministério das Relações Exteriores do governo de Bashar Al-Assad, onde o vice-ministro do exterior do país, Faisal Mekdad, aguardava pela jovem juntamente com três diplomatas brasileiros. Segundo Juliana, ele pediu desculpas à moça pelo ocorrido e garantiu que entraria em contato no futuro, após a guerra, para convidá-la a conhecer seu país.

Juliana voltou ao Brasil no dia 6 de dezembro. Foi internada no hospital e fez uma bateria de exames para detectar possíveis infecções no organismo. Ficou dias sem conseguir se alimentar direito e ainda tem crises de choro constante. Trancou o quinto semestre de direito que cursava em uma faculdade de Cuiabá e deixou seu trabalho na Associação Mato-Grossense dos Municípios. “Muitas pessoas disseram que passei por tudo isso porque colhi o que plantei. Mas isso não é verdade, fiz tudo de coração”, garante.

Quando a embaixada brasileira recuperou os pertences da casa em que ficou hospedada em Damasco, muitas coisas estavam faltando: celular e outros eletrônicos, roupas e 2.000 dólares que havia enviado por transferência eletrônica e que foram sacados no país para serem entregues a Juliana. “Não tenho mais contato com a família, mas não guardo mágoas”, afirma a jovem, que agora desconfia das intenções dos sírios que a convidaram para ficar em sua casa.

A guia brasileira, Carla Mussallam, que ajudaria Juliana em sua chegada ao Líbano, conta que alertou a jovem para os perigos de viajar à Síria e tentou dissuadi-la da viagem. “Ela foi avisada. Mas ela é jovem e quis se aventurar, infelizmente acabou nessa situação”, diz.

Alguns outros poucos brasileiros foram presos na Síria nos últimos anos. Entre eles estão o fotógrafo Gabriel Chaim e o jornalista Klester Cavalcanti, que passou seis dias detido em Alepo. Os dois viajavam a trabalho.

Assim como Juliana, muitas mulheres são ludibriadas por pessoas que conhecem na Internet e acabam em situações de dificuldade ao viajarem para o exterior ou ao fazerem depósitos bancários para supostos conhecidos.

Uma pessoa próxima à jovem que não quis se identificar diz crer que talvez Juliana tenha sido ingênua ao não compreender possíveis segundas intenções da família: “talvez para o rapaz sírio existisse uma chance amorosa ou dele conseguir vir para o Brasil, talvez tudo tenha sido um golpe”.

A Polícia Federal do Mato Grosso ainda investiga o caso da jovem de Cuiabá. A empresa para a qual Juliana trabalhava cedeu seu laptop à perícia. As autoridades buscam agora mais pistas que expliquem o motivo da viagem “de férias” da estudante para um país tão conflagrado e em ebulição como a Síria.