O estudo da USP traz a soja, a cana e o milho com responsáveis por 72% do uso de agrotóxico.

Uma pesquisa revelou que ocorrem oito casos de intoxicação diárias no Brasil causadas pelo uso de agrotóxicos, uma média de 3.125 casos por ano, segundo o Ministério da Saúde, que avaliou dados de 2007 a 2014. O estudo foi realizado no Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP) e intitulado como “Geografia do uso de agrotóxico no Brasil e conexões com a União Europeia”. 

“Cabe esclarecer, entretanto, que se calcula que para cada caso de intoxicação notificada, tenha-se 500 outros não notificados. Isto significa uma subnotificação da ordem de 1 para 50. Os casos respresentantados no mapa são portante, a ponta do iceberb”, afirma a autora do estudo, Larissa Mies Bombardi, doutora em geografia pela USP.

Mato Grosso é o estado que mais utiliza agrotóxico no país, com 17,7% do total consumido. Porém, segundo a autora, o estado seria um caso de subnotificação, uma vez que a Bahia, que consome muito menos agrotóxico tem mais casos registrados.  Mesmo com essa ponderação, o Estado é o segundo colocado da região Centro Oeste em contaminação humana por agrotóxicos. São 513 casos registrados, contra 893 de Goiás, o campeão regional.

No Estado, também estão muitos municípios com alta índice de casos de contaminação por cem mil habitantes, princialmente no Médio Norte e nas áreas novas de lavoura de soja, como Reserva do Cabaçal, Santo Antônio do Leste, Nova Ubiratã, Planalto da Serra e São José do Povo.

Dentro do universo dos registros oficiais nacionais, a maior concentração está no Centro-Sul do país, sendo o Paraná o estado líder, com mais de 3.700 notificações. 

Razões do veneno

A proposta do Atlas é compreender porque o país é um dos que mais investe no uso massivo dos defensivos agrícolas, o que gera inclusive muitas perdas econômicas, pois agrega maiores custos à produção agropecuária, uma das principais atividades econômicas do nacionais. Principalmente no que se refere a soja, que em 2013 ocupava segundo lugar na pauta das exportações e em 2016, passou a ocupar o primeiro lugar. Segundo dados do Atlas, em 2015 o Brasil comercializou 20% de todo o agrotóxico produzido no mundo. 

O uso total de agrotóxicos saltou de 170 mil toneladas,  no ano de 2000, para  500 mil toneladas em 2014 – um aumento de 135% em apenas 15 anos. A soja é o princial destino do uso total desses insumos, representando 52% das aplicações. A soja ocupa hoje 30 milhões de hectares no país. O milho e cana-de-açucar consomem juntos 20%.  

Os venenos mais comuns

Os aditivos mais vendidos até 2014 eram o Glifosato e seus sais, o 2,4-D, o Acefato, o Óleo mineral, o Clorpirifós e o Óleo Vegetal. Porém o glifosato sozinho representa quase o dobro da soma de todos os outros produtos, com 194 mil toneladas de aplicações anuais.

Mato Grosso é o lider na aplicação desse veneno, consumunido 38 mil toneladas por ano até 2014.  A substância é aplicada para eliminar ervas daninhas nas plantações, domina mais da metade do mercado mundial de herbicidas e, segundo a consultoria Grand View Research, movimentará U$S 8,5 bilhões em 2020.

A  Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os países da União Européia e os Estados Unidos possuem opniões divergentes sobre esse agrotóxico. Enquanto as duas entidades internacionais classificam como “improvável” o potencial cancerígeno do herbicida, os governos dos países estudam diminuir, ou até mesmo banir, a sua utilização.

Além de ser associado ao câncer o glifosato é acusado de ser um desregulador das célular hepáticas. Em concentração de partes por milhão (ppm), a substância, induziria à necrose das celular hepáticas e à morte programadas de células do testículo de roedores.

O glifosato surgiu comercialmente no começo dos anos 70, está registrado em mais de cem países.  Quimicamente é considerado como um herbicida não-seletivo, ou seja, mata a maioria das plantas. A Monsanto é uma das principais produtoras mundiais, a empresa e desenvolveu e vende uma linha de sementes batizadas de “Roundup Ready”, geneticamente modificadas para resistir ao glifosato.

Antes das pesquisas relacionadas ao câncer, o herbicida era popularmente tido como uma solução segura para lavouras de milho, soja e crescimento de pasto.  Agora é olhado como desconfiança por conta do risco associado à doença.

Para matar as ervas daninhas e outras espécies não resistentes, o glifosato impede que a planta produza algumas proteínas fundamentais para seu crescimento, além de interromper uma importante via enzimática fundamental para a sobrevivência dos vegetais.

O produto será banido da França em 2022. O Brasil é considerado no mundo como um dos mercados “menos restritivos  para os agrotóxicos. “30% de todos os Ingredientes Ativos (agrotóxicos) utilizados no Brasil são proibidos na União Europeia”, afirmou Larissa Mies, no estudo. Ela também ressalta que, “dentre os dez Ingredientes Ativos mais vendidos no Brasil dois são proibidos na União Europeia”.

Outras substâncias

O Acefato passou por um processo de avalição no Ministério da Saúde e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária Na nota técnica ,após a avaliação do referido, consta que o mesmo causa graves quadros neurológicos como a síndrome intermediária, que caracteriza-se pela acentuada fraqueza dos músculos respiratórios e a diminuição da força dos músculos do pescoço e das extremidades próximas dos membros.

A Atrazina é outro inseticidada banido em outros países, desde 2004, amplamente comercializado no Brasil, que também tem o Mato Grosso como um dos principais mercados. O seu uso ocorre com foco na lavoura da cana-de-açúcar. No caso dessa substância, estado só perde a liderança para São Paulo e Mato Grosso do Sul.  

Leite materno contaminado em 2014

Um levantamento Sistemático da Produção Agrícola Brasileira, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que 28,8% da soja produzido no país em 2013 saíram de Mato Grosso. Os agrotóxicos, utilizados para maximizar essa produtividade, representam uma ameaça para a saúde da população e já foram encontrados no leite materno de mulheres de 51 cidades mato-grossenses.

A informação é do médico e docente/pesquisador do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Wanderlei Antônio Pignatti, em entrevista exclusiva ao Circuito Mato Grosso à época. 

De acordo com o especialista, que participa de um grupo de trabalho interinstitucional, municípios de várias regiões do Estado sofrem não apenas com a contaminação do leite materno “mas da carne, do ar, da água e dos alimentos”. O estudo, que se encontra em fase preliminar, está sendo feito em cidades das regiões de Rondonópolis, Sinop, Tangará da Serra e Diamantino.

Questionado se nesses 51 locais seria possível afirmar que há agrotóxicos no leite materno que amamenta os bebês, ele é taxativo. “Sim e existem estudos internacionais que também comprovam essa possibilidade de contaminação, uma vez que os agrotóxicos estão no ar e nos alimentos. Estas substâncias tóxicas se alojam nos 2% de gordura de que é composto o leite materno e são consumidas sim pelos bebês”, diz ele.

Pignatti explica que agrotóxicos “são venenos utilizados na agricultura” e compreendem os “inseticidas, herbicidas, fungicidas e maturadores de secante”. Todos são perigosos, com classificação entre 1 (“extremamente tóxico”) até 4 (“pouco tóxico”) e que o termo “defensivo agrícola”, utilizado por alguns produtores para “amenizar” o termo de substâncias tóxicas utilizadas nas plantações “não existe”.