No princípio deste século, pelas páginas do jornal O Globo, o escritor Affonso Romano de Sant’Anna iniciou uma ampla discussão a respeito daquilo que se convencionou chamar “arte moderna”.

— Nos últimos anos — disse ele — tornou-se evidente um fosso entre o público e as obras apresentadas como artísticas (…) Muitos intelectuais importantes dentro da chamada modernidade não reconhecem em muitas das obras hoje apresentadas em galerias e museus o caráter de inovação ou de criatividade artística.

Sant’Anna se apressa em esclarecer que não está se referindo a nenhum fenômeno similar às vanguardas que marcaram a passagem do século XIX para o XX, com novas linguagens estéticas e, portanto, dificuldades naturais na assimilação da mensagem.

— A sensação que se tem hoje — complementa — é que muitos autores desses produtos não estão apenas repetindo essencialmente as experiências que vão do impressionismo ao dadaísmo, mas sobretudo são despreparados técnica e intelectualmente para a tarefa a que se propõem.

Não por acaso, as reflexões de Sant’Anna foram reunidas num livro intitulado Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão.

Marcel Duchamp é aquele sujeito que transformou um penico em obra de arte. Outra vez desenhou um bigodinho na Mona Lisa. Noutra ocasião, acordou no meio da noite, invocado, e resolveu se masturbar. O produto da masturbação pingou sobre uma chinela velha. Hoje a chinela está em Tóquio, num museu, e vale uma fortuna.

Nada mal para uma época que de fato demandava questionamentos sobre o fazer artístico, mas o tempo de Duchamp passou e muita gente insiste em imitá-lo sem perceber a ingenuidade previsível da atitude. Se tudo que é chamado de arte pode ser arte, a contrapartida mais evidente é que nada do que é chamado de arte terá a possibilidade de ser arte.

Durante o século XX, várias formas de expressão artística chegaram a um beco sem saída conceitual do gênero “branco sobre o branco” de Malevich: romance sem personagens, teatro sem atores, música sem notas musicais e cinema sem enredo. Todas essas modalidades deram um jeito de se reinventar, menos as artes plásticas.

O resultado está aí: uma pirâmide feita com caixinhas de fósforos é uma escultura; uma toalha suja pendurada na parede, um autorretrato; um maluco jogando cerveja no chão, um ato de protesto. O crème de la crème é chamar aquela pilha de lixo no canto do museu de “instalação”.

Certa vez um tal de Piero Manzoni depositou suas fezes dentro de uma latinha e batizou a obra como Merda de Artista. Depois escreveu num informativo sobre a façanha: “o mais longo que consegui fazer tem 7m 20cm”. Além de nojento, é mentiroso. Outro, o belga Win Delvoye, construiu uma gigantesca máquina de fazer cocô. O produto dessa máquina já foi vendido em saquinhos que custavam mil dólares cada.

Poderíamos bolar uma leitura intelectualoide de tais obras, algo sobre o paradoxo da pós-modernidade distópica e desumanizada por direitas entreguistas e esquerdas pusilânimes, mas seria um gesto tão idiota quanto levar merda embalada para casa.

Daí que, apesar da referência aos bichos dobráveis de Lygia Clark — uma artista que teve algo a dizer — a performance do homem nu no MAM, com ou sem crianças por perto, é vazia de sentido e originalidade.

Não se trata aqui de propor boicote ou censura à performance — atitudes autoritárias e pouco construtivas. Trata-se, isso sim, de reconhecer, sem medo de passar um atestado de conservadorismo, que estamos diante de arte ruim, tola, esnobe, repetitiva e totalmente deslocada do seu tempo. “Causar” a partir dos tabus é fácil, mas isso faz com que a arte seja imediatamente relegada a um plano secundário.

Como diria o próprio Sant’Anna, já passou da hora de os artistas urinarem no penico de Duchamp.